(Junho/2003)
MERCADOS DE EXTREMOS As duas pontas de consumo hoje estão lado a lado: sofisticação e consumo básico
O Brasil gravita entre os extremos. Ao mesmo tempo em que há um mercado promissor para produtos mais caros e sofisticados como os pratos congelados, cosméticos e perfumes, e suas embalagens igualmente sofisticadas, há também uma outra realidade de mercado que atende a parcela de consumidores de menor poder aquisitivo, muitas vezes com produtos consumidos sem embalagem, a granel. Entre os extremos, um vasto mercado se descortina, para um consumidor cada vez mais exigente em qualidade e preço.
Representativo do consumo de produtos que de uns anos para cá passou da categoria de supérfluos para básicos, o mercado de cosméticos no Brasil vem evoluindo a taxas significativas, superiores a 10% ao ano, em um cenário bastante dinâmico: muitos novos produtos preenchem as prateleiras dos supermercados e lojas, e os catálogos das revendedoras, além de um número crescente de empresas que estão se firmando no mercado.
Na outra ponta, encontramos dados bem diversos. Por exemplo, só 62% do arroz beneficiado no Brasil é acondicionado, segundo a Datamark ( www.datamark.com.br), consultoria especializada no mercado de embalagem. O mesmo acontece com produtos como biscoitos, carnes, aves, hortifrutis, etc., em diferentes porcentagens. O consumo caseiro de suco de laranja natural espremido na hora, não acondicionado, foi estimado em 2,9 bilhões de litros em 2000. Isso decorre tanto das dimensões do país, das dificuldades no abastecimento de áreas afastadas dos grandes centros e também da riqueza natural do Brasil, aliada à baixa renda de larga parcela da população. Fator que também movimenta o mercado informal que, em alguns segmentos como o de produtos de limpeza, é alto. Há também um grande mercado informal, que não sofre a fiscalização do governo, nem paga impostos, para o leite (cerca de 46,9%), água mineral, aguardente, etc, que normalmente utilizam embalagens reaproveitadas de outros produtos, como se observa principalmente nos bairros periféricos das grandes cidades e nas cidades afastadas dos grandes centros urbanos. São dados que revelàm ao mesmo tempo um desafio para o setor e seu imenso potencial de crescimento, que o programa Fome Zero, do presidente Lula, trouxe à tona. Um programa que quer atender cerca de 46 milhões de pessoas em 4 anos, e que não se limita a dar alimentos de forma emergencial, mas levar adiante ações no sentido de elevar o nível de emprego e a distribuição de renda. O programa conta com um orçamento de R$ 1,8 bilhão em 2003 e outros R$ 3,2 bilhões de organismos internacionais.
E para o consumo dessa população, os parâmetros são outros, como sugeriu Alexandrino Alencar, vice-presidente para relações com o mercado da Braskem. "Agora o desafio passa a ser criar embalagens inteligentes, que permitam a conservação dos alimentos, por longos períodos, em longas distâncias e a baixo custo."
É de se perguntar também se a consciência ecológica está um pouco mais amadurecida na sociedade a ponto de interferir na escolha do consumidor. Um produto com uma embalagem com apelo ecológico ou a marca de uma empresa que desenvolve ações ambientais e sociais são efetivamente percebidas? O que notam os empresários é que no Brasil a questão do custo ainda é a mais importante, já que a indústria é duplamente pressionada, pelo aumento no custo da matéria-prima em uma ponta e de outro lado, a pressão da rede varejista pela manutenção dos menores custos. No entanto, a legislação sobre a questão do lixo, a cobrança de taxas do lixo pelas prefeituras, tudo isso está tornando essa discussão urgente e tudo indica que esse é um ativo das empresas para o mercado futuro.
Papel, papelão e cartão
Dos diversos tipos de matéria prima para embalagem, a caixa de papelão ondulado, considerada a embalagem das embalagens, tem a maior participação em volume, com 30,4%,mostram os dados da Datamark hoje 1,749
milhão de toneladas são consumidas por ano. Os produtos alimentícios lideram o consumo de embalagens de papelão ondulado, com 34,5%, seguido dos produtos de papel, com 17,8%. Os segmentos de frutas & floricultura, com 4,5% e o de avicultura, com 2,7%, vêm apresentando crescimento na participação em relação aos últimos anos, em virtude principalmente das exportações.
As embalagens em papel kraft foram identificadas em 232,5 mil toneladas em 2001, movimentando o equivalente a US$ 356 milhões. A fabricação de sacos representa o maior volume, 80,6% do total, principalmente para o acondicionamento de cimento, açúcar e rações.
O segmento de embalagens em cartão duplex e triplex, com 387,5 mil toneladas, registrou um faturamento de US$ 719,3 milhões em 2001, voltado quase que totalmente para a produção de cartuchos, principalmente para produtos de maior valor agregado, já que seu formato, qualidade de impressão e características de proteção ao produto, possibilitam campos vastos para o trabalho de design. Uma parcela menor é direcionada para cartelas de blister, cartuchos de microondulado e multipacks. Do total do mercado de cartuchos, equivalente a 297,5 mil toneladas, o segmento de vestuário e calçados é hoje o de maior participação, com 21,7%, e apresentou crescimento em tonelagem em relação ao ano anterior, devido principalmente ao aumento das exportações.
Flexíveis
As embalagens flexíveis, representadas pelas estrutUras compostas por 2 ou mais materiais, movimentaram 393 mil toneladas, ou US$ 1,9 bilhão, em 2001. As caixas assépticas, inclusas nessa categoria, representaram 200,6 mil toneladas, cerca de 7,3 bilhões de unidades. Considerando-se os invólucros flexíveis, o consumo é liderado pelo segmento de biscoitos, com 21.740 toneladas; balas e doces, 13.677 toneladas; café, 10.570 toneladas; carne industrializada, 7.602 toneladas; chocolate, 11.514 toneladas; massas alimentícias, 7.429 toneladas; rações, 11.009 toneladas e salgadinhos, 6.034 toneladas.
As caixas assépticas têm a maior participação do segmento de leite, com 175 mil toneladas; sucos, 9.500 toneladas; ato matados, 8.590 toneladas; creme de leite, 2.669 toneladas; leite condensado, 1.662 toneladas; maionese, 1.452 toneladas.
Metálicas
O mercado de embalagens de aço respondeu por 682,3 mil toneladas de folha de flandres e folha não revestida em 2001. As latas duas peças em aço representaram 519 milhões de unidades. O mercado brasileiro de aerossóis, atendido pela Prada e Brasilata, consome o equivalente a 110 milhões de unidades, principalmente para inseticidas, purificadores domésticos e tintas. A produção de tampas de todos os tipos representou um consumo de 48,7 mil toneladas de aço, liderada pelas rolhas metálicas, responsável por 38,4 mil toneladas, o equivalente a 15,5 bilhões de unidades.
As latas duas peças de alumínio participaram com 148,5 mil toneladas. Desse tanto, 145,3 mil toneladas ou 9,737 bilhões de latas foram utilizadas no envase de bebidas carbonatadas. As tampas stay on tab, para as latas duas peças, representaram outros 57,2 mil toneladas de alumínio, cerca de 10,5 bilhões de tampas.
Plásticos
Entre os materiais para embalagens, os plásticos lideram em valor, com 30,6% do total, gerando 1,116 milhão de toneladas de embalagens e US$ 2,788 bilhões (dados de 2001). O PEBD, que é utilizado principalmente na extrusão de filmes (84,6%), tem na produção de sacos e invólucros sua maior participação, liderada pelas embalagens para produtos básicos como aves, arroz, açúcar, feijão, farinhas e rações. O PEAD por sua vez representou um consumo de 215 mil toneladas para embalagem em 2001, registrando um faturamento de US$ 556,7 milhões. Utilizado principalmente para o sopro de garrafas e frascos, com 143,8 mil toneladas, o PEAD tem no setor de produtos de limpeza o maior consumidor, com 70,7%, seguido por produtos para cabelo, lubrificantes e agroquímicos.
O PP, além de ser muito utilizado para a extrusão de ráfia, cerca de 46,8% de um mercado identificado em 242 mil toneladas, ou US$ 674 milhões, também é bastante empregado na injeção de potes e tampas de margarinas (6,43%) e de copos de água mineral (3,79%) e iogunes e sobremesas. Outra imponante utilização está na produção de tampas de rosca, com consumo de 12,95% do PP para embalagem, e de tampas wing lock para bebidas carbonatadas, com 8,58%.
O mercado de PET foi avaliado em 356 mil toneladas em 2001, com faturamento de US$ 710 milhões. Esse volume representa cerca de 5,1% do consumo mundial de PET, calculado em 7 milhões de toneladas em 2001 e de 59% do consumo da América do Sul, de 600 mil toneladas. As projeções da Datamark indicam que em 2010 o consumo mundial atinja 16 milhões de toneladas. Os principais mercados são o de refrigerantes, com 73,2% do consumo de PET; água mineral, 10,9% e óleo comestível, 8,6%. Também encontra participação crescente no segmento de produtos de limpeza, 2,0% e farmacêuticos, 1,4%.
Vidro
O mercado de embalagem de vidro representou 859 mil toneladas ou US$ 414,4 milhões em 2001. As garrafas one way representaram 18,2% contra 19,3% das retornáveis, enquanto garrafas e frascos em geral respondem por 39,7% do consumo de vidro e os potes e copos, por 22,2%, além dos garrafões retornáveis para bebidas como vinho. Do ponto de vista dos produtos, somente as bebidas alcoólicas respondem por um consumo de 58,4% das embalagens de vidro. A maionese consome cerca de 54 mil toneladas de potes de vidro, o café solúvel, 32 mil toneladas, os produtos farmacêuticos, 26,5 mil toneladas e as fragrâncias, 30,7 mil toneladas.
Reciclagem
Muito mais que a consciência ecológica, o desemprego e a pobreza ainda são os principais fatores no crescimento do mercado de reciclagem no Brasil. A reciclagem de alumínio, a de maior índice entre os materiais de embalagem, registrou um índice de 87% em 2002, recorde entre os países em que a reciclagem não é obrigatória. Segundo a Associação Brasileira do Alumínio (Abal - www. abal.org.br), o índice corresponde a um volume de 121,1 mil toneladas ou 9 bilhões de unidades, um crescimento de 2,6% sobre o volume coletado em 2001. A coleta de latas de alumínio movimenta hoje R$ 850 milhões por ano e envolve aproximadamente 2.000 empresas. Cerca de 150 mil pessoas vivem exclusivamente da coleta de latas de alumínio, arrecadando em média, R$ 3 por quilo, dependendo da região.
As latas de aço também estão alcançando um bom índice de reciclagem. Após a fundação da Reciclaço, pela Metalic (www.metalic. com.br), empresa pertencente à CSN, o índice de reciclagem de latas de aço para bebidas, subiu de 27% para 75% em dois anos, números auditados pela Environmental Resources Management, uma empresa independente.
Em volume, o papel é o material mais reciciado, com cerca de 2,5 milhões de tonela das, segundo Datamark um índice de 38%. A reciclagem de vidro chega a 41 % com volume de 373 mil toneladas e a de plásticos pós-consumo já é de 17,4%, segundo pesquisa feita pela Plastivida. De acordo com o Cempre - Compromisso Empresarial para a Reciclagem (www.cempre.org.br). o Brasil vem encontrando novas oportunidades de negócios na exportação de aparas, principalmente de polietileno, que lidera a pauta de exportações do setor de reciclagem, com cerca de 4.500 toneladas, gerando divisas da ordem de US$ 1,3 milhão.
No caso do PET, hoje o índice de reciclagem está em cerca de 33% (2001). Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Embalagens PET (Abepet - www.abepet.com.br). foram recicladas 89.000 toneladas de PET em 2001, utilizado em fibra de poliéster (41 %), não-tecidos (16%), cordas (15%), resina insaturada de poliéster (10%), embalagens (9%), cerdas (5%), fitas (3%). Atualmente vigora uma lei que permite o uso de 40% de plástico reciclado em garrafas PET, que não pode voltar ao mercado sob a forma de brinquedos, material hospitalar, embalagens de alimentos ou bebidas. Segundo a Abepet, não há excedente para a garrafa PET reciclada. Atualmente a oferta cobre 40% da demanda.
 
 
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