sexta-feira, 22 de março, 2013

No intervalo da festa, Volks amadurece decisões

Para celebrar seus 60 anos no Brasil, a Volkswagen recorreu à relação quase sentimental que muitos criaram com os carros da marca. Por isso, o tom da festa foi o contraste entre o Fusca antigo e o atual. Mas o elo entre velho e novo envolve também decisões importantes. Em seis meses, o grupo definirá se vale a pena voltar a produzir carros da marca Audi no país e em nove meses desligará a linha da Kombi, veículo de maior longevidade na história da indústria automobilística mundial.
Faltavam poucos minutos para o início da festa que a Volks preparou quarta-feira à noite. Michael Macht, responsável pela área de produção mundial do grupo alemão, já havia dado por encerrada a conversa com um pequeno grupo de jornalistas. O executivo, que veio ao país para a celebração, já havia respondido sobre a fábrica da Audi, uma das questões que mais têm aparecido nas entrevistas com os executivos da Volks. Um repórter da agência de notícias alemã DAPD interrompeu. "Eu preciso fazer uma última pergunta: e o que acontecerá com a Kombi?"
Sentados no sofá em uma das salas do imponente prédio da Estação Júlio Prestes, próximos ao saguão onde mil convidados os aguardavam, Macht e Thomas Schmall, presidente da Volkswagen do Brasil, entreolharam-se e pela primeira vez na entrevista demonstraram constrangimento, quase uma tristeza. Ambos pararam de falar por alguns segundos. Schmall foi o primeiro a dar a resposta que já se esperava: com 56 anos de Brasil, a Kombi deixará de ser produzida no fim do ano.
A informação não surpreendeu, mas sim o desalento que tomou conta dos dois executivos. Pela primeira vez, a direção da Volks admitiu que o veículo com o qual inaugurou a produção no Brasil está com os dias contados. O desenho da Kombi não permite a instalação de airbags e nem de freios ABS, ambos obrigatórios em todos os veículos produzidos no país a partir de 1º de janeiro de 2014.
E o que a empresa fará para preencher essa lacuna? Segundo Schmall, tentará encaixar outros modelos que podem substituir o segmento ocupado pela Kombi Não haverá, portanto, um único substituto, segundo ele. "A Kombi é um veículo único", disse.
Trata-se mesmo de um caso sem precedentes. Mais de 1,5 milhão de Kombis foram produzidas desde o lançamento em setembro de 1957. Seu preço, ou custo-benefício, explica o sucesso. Na versão standard ou furgão, que acomodam até nove passageiros ou uma tonelada de carga, o modelo mais simples custa R$ 48 mil. É quase a metade do preço de modelos que, de certa forma, atuam na mesma categoria, como Renault Master, Fiat Ducato e Mercedes-Benz Sprinter.
Ninguém contesta que esses concorrentes são de longe mais atraentes, confortáveis, sofisticados. Mas pertence à Kombi a liderança, com 33% do segmento. Em 2012, foram 26 mil Kombis, mais do que a própria Volks vendeu de modelos como o Space Fox. Mais do que a Ford vendeu do Focus.
O fim da linha de um produto que se vende sozinho é a única notícia ruim que Macht leva do Brasil. O país continua a ser o terceiro mercado para o grupo, com 852 mil veículos produzidos em 2012. Embora a Fiat continue na liderança no mercado interno de automóveis, o volume produzido pela Volks a manteve no posto de maior fabricante. A produção no Brasil é indispensável para a meta do grupo alemão de chegar à liderança mundial entre os fabricantes de veículos em 2018.
É um resultado que contrasta com o que Macht tem visto na Europa. "Antes da crise, o mercado italiano, por exemplo, era de 2,5 milhões por ano. Agora está em 1,4 milhão. E isso aconteceu em poucos anos", disse o executivo.
Quanto à Audi, os mexicanos levam, por enquanto, vantagem em relação ao Brasil. O grupo alemão decidiu instalar uma fábrica no México enquanto ainda pensa se vale a pena fazer o mesmo no Brasil. Em seis meses sairá a decisão, segundo Macht, ciente de que concorrentes como a BMW já anunciaram projetos de fábricas no país.
A festa dos 60 anos levou para a plateia da Sala São Paulo concessionários, fornecedores e autoridades como o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. O tom dos discursos dos brasileiros, principalmente, foi de sentimentalismo e recordações, como a do vice-governador Guilherme Afif Domingos, que hoje leva os netos para passear no mesmo fusquinha em que seus filhos viajavam.
Valor Econômico
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