sexta-feira, 27 de outubro, 2017

Fim da barreira aos calçados da China já preocupa setor no País

São Paulo - Mesmo com o direito antidumping contra a China em vigor, a indústria calçadista segue enfrentando dificuldades e a situação pode piorar com o fim da medida, já que, em meio à crise, o Brasil pouco avançou em competitividade para enfrentar os asiáticos. Atualmente, a sobretaxa contra o calçado chinês é de US$ 10,22, em vigor desde 2016 e válida até março de 2021. Inicialmente, a indústria conquistou na Organização Mundial do Comércio (OMC) o direito à aplicação do antidumping de US$ 13,85, que funcionou entre 2010 e 2015. Um direito provisório foi concedido em setembro de 2009. Como efeito da medida, os desembarques apresentaram uma retração tão vertiginosa quanto à alta apresentada no final da década passada. Após atingir um pico de US$ 218,7 milhões em 2008, os valores importados pelo Brasil das fábricas chinesas caíram mais de seis vezes, somando US$ 35,9 milhões no ano passado. No entanto, com a restrição à China, outros países asiáticos ganharam representatividade nas compras brasileiras de sapatos. Especialmente do Vietnã, os desembarques saltaram 472%, entre 2008 e 2014, período em que a economia estava aquecida e demandante de bens semi-duráveis. Atualmente, o Vietnã representa um total de 45% dos pares desembarcados e 55% dos valores importados. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), compilados pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), entre janeiro e setembro, o Brasil comprou 8,395 milhões de pares, ao custo de US$ 148,928 milhões. Esse avanço levou a associação a preparar estudos para tentar aplicar antidumping contra o Vietnã, mas o processo não seguiu adiante. A razão, conforme relatos de fontes do setor, é de que o processo resultaria na migração das importações para outros países asiáticos. Além dos altos custos, o prazo exíguo para a tramitação do processo atrapalhou. O termos de adesão do Vietnã à OMC, a partir de 1º de janeiro de 2019, prevê que os demais países não poderão mais aplicar regras ortodoxas no cálculo da margem de dumping sobre os produtos exportados pelo país asiático. Dessa forma, todo o trâmite, que incluia protocolar a ação na Secex, antes das investigações seguirem à OMC, teria que ocorrer em cerca de um ano. Gigante Se com uma produção de 927 milhões de pares ao ano - número pouco inferior ao do Brasil, de 942 milhões -, o Vietnã causa apreensão, a situação voltará a ficar complicada com o retorno a pleno vapor da China como exportadora de calçados para o Brasil. De acordo com dados da World Shoe Review (WSR), a China produz 11,322 bilhões de pares, montante quatro vezes superior à segunda indústria global, que é a Índia, com 2,698 bilhões. O pior, porém, reside no total que é exportado. Foram mais de 8,341 bilhões de pares destinados para todo o mundo em 2015, de acordo com os últimos números da WSR. Ou seja, quase 73% da produção segue ao mercado internacional. Como comparação, o Brasil exporta, em média, menos do que 15% do que produz. Desvantagem Muito mais do que falta de estratégia comercial, o que dificulta a inserção do Brasil são custos internos, que deixam o produto local mais caro. Enquanto a China exporta ao Brasil a um valor médio por par de US$ 5,00, as exportações brasileiras saem a um montante de US$ 9,00, com base em dados entre janeiro e setembro. Do Paraguai, por exemplo, as compras saem por um valor médio de US$ 5,00. "O problema não está no exterior, mas sim no Brasil", comenta o presidente do Sindicato da Indústria Calçadista de Franca (Sindifranca), José Carlos Brigagão do Couto. Na avaliação dele, é pouco provável que o Brasil vá conseguir uma renovação da barreira contra a China, após a concessão do antidumping por mais cinco anos, em 2016. "Nós precisamos nos preparar, caso contrário podemos ver parte da nossa indústria desaparecer", alerta o dirigente. Para ele, a crise econômica e política que abateu o País tirou mais competitividade do setor, que convive com um sério problema de desindustrialização. Entre os fatores que tiram a competitividade está o complexo sistema tributário. "Nós exportamos o 'Custo Brasil', o que tira nosso espaço no mercado internacional", acrescenta. Segundo o presidente da Abicalçados, Heitor Klein, o fim do antidumping preocupa o setor, porém as indústrias estão fazendo sua parte, dentro das fábricas, com o apoio de programas setoriais, como o Future Footwear. "Temos observado avanços importantes de produtividade nos processos e na aplicação dos insumos", conta. "Do lado de fora, residem os problemas." Um avanço, porém, é o da reforma trabalhista, que contemplou algumas demandas e trouxe flexibilizações importantes, avalia Klein.
DCI - 27/10/2017
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