quinta-feira, 20 de abril, 2017

Drogarias querem ser a 'porta de entrada' do sistema de saúde

São Paulo - As grandes redes de farmácias, ligadas à Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), querem se tornar a 'porta de entrada' do sistema de saúde. Com um programa de assistência farmacêutica presente em 642 lojas (cerca de 10% do total), a meta é chegar, nos próximos três anos, a 30%; ampliando também o rol de serviços.
O maior entrave para a consolidação, de acordo com o presidente-executivo da Abrafarma, Sergio Mena Barreto, é a falta de regulação federal, já que a insegurança jurídica acaba inibindo o investimento das empresas. A Lei 13.021, que confirma a farmácia como um estabelecimento de saúde e permite a prestação de serviços de assistência farmacêutica, foi aprovada em 2014. Até agora, no entanto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não regulamentou aspectos fundamentais relacionados a forma como os serviços devem ser prestados.
"A agência não regulamentou o tamanho da sala, estrutura necessária e, principalmente, a questão de como deve ser feita a vacinação e alguns testes. Por isso, estamos operando em estágio 'beta', esperando a regulação federal. Quando ela sair, teremos segurança jurídica para desenvolver o programa de forma consistente", afirma.
O executivo explica que, apesar da regulação ser federal, a fiscalização e autorização é feita no âmbito municipal. Como hoje ainda não há um regramento que valha para o País inteiro, cada cidade acaba fiscalizando e impondo exigências distintas. "Como se tratam de redes com presença em diversos estados e municípios do Brasil isso dificulta muito a atuação", diz.
A coordenadora farmacêutica da Pague Menos, Cristiane Feijó, também aponta para a falta de regulação federal como a principal barreira. De acordo com ela, a rede, que oferece hoje oito tipos de serviços nas 517 salas de atendimento clínico, tem interesse em ampliar a gama e passar a disponibilizar, por exemplo, a vacinação. "Ainda não oferecemos porque as regras não estão claras. Estamos esperando a vigilância deliberar sobre o assunto primeiro."
A Panvel, que possui 43 operações com assistência farmacêutica, vai na mesma linha. A farmacêutica plena da rede, Aline Fernandes da Silva, diz que a empresa tem interesse em oferecer o serviço de imunização e testes laboratoriais, mas que antes é preciso que venha a regulação. "Já estamos preparados para isso, apenas esperando que ela venha. Assim que vier, vamos implementar em nossas lojas", afirma. A expectativa no mercado, de acordo com ela, é que a Anvisa regulamente os serviços já no primeiro semestre deste ano. Barreto, por sua vez, sinaliza que, 'se tudo correr bem', a regulamentação virá dentro de quatro meses.
O papel na saúde
A partir do momento em que as barreiras forem ultrapassadas, Barreto acredita que as drogarias terão potencial para se transformar na 'porta de entrada' para o sistema de saúde. "O serviço não tem o objetivo de substituir a consulta médica, mas seria como uma primeira triagem", ressalta.
Na visão do especialista, os serviços farmacêuticos, após consolidados, poderiam contribuir inclusive para desafogar o Sistema Único de Saúde (SUS). Ele afirma que grande parte da fila do SUS se dá por conta de 'agravos' (doenças que pioraram porque o paciente não seguiu o tratamento). "Gera uma demanda maior para o SUS e o sistema privado sem necessidade, já que são situações que poderiam ser evitadas com o acompanhamento adequado do tratamento dentro das farmácias."
Mais do que ser a 'porta de entrada', Feijó, da Pague Menos, afirma que a empresa quer ser tornar protagonista do sistema de saúde brasileiro. "Todas as filiais novas que abrirmos virão com a clínica", diz. No mês passado, a rede realizou mais de 110 mil atendimentos, para cerca de 9 mil clientes diferentes. Até o final deste ano, a previsão é fechar com 700 unidades oferecendo a atenção farmacêutica.
A Panvel também planeja expandir o programa este ano e tem a meta de dobrar o número de operações, chegando a 80 unidades. "Entendemos que é esse o futuro das farmácias. Em outros países, como nos Estados Unidos, isso já está evoluído, e não vemos outro caminho para o Brasil que não seja esse", afirma Aline.
Sobre a consolidação do programa no setor, a especialista afirma que, além das questões regulatórias, há uma barreira cultural a ser transposta. De acordo com ela, ainda há pouco conhecimento do consumidor brasileiro a respeito dos serviços: "Está faltando divulgação. Que a população experimente os serviços e se sinta confiante."
A superintendente da Drogaria São Bento, Flávia Buinain, acrescenta que a dificuldade consiste em criar uma demanda que ainda não existe, já que o brasileiro não está acostumado a se consultar com o farmacêutico. "Não há uma demanda espontânea para esse tipo de atendimento, e o desafio é justamente esse: fazer com que a população saiba da existência do programa."
Assim como os demais entrevistados, ela afirma que o potencial de contribuição para o sistema de saúde brasileiro é muito grande. Como exemplo, ela cita uma unidade da São Bento localizada no município de Campo Grande (MS). "A loja fica ao lado de um posto de saúde e as enfermeiras comentaram que houve uma diminuição grande da demanda após a inauguração da sala de atendimento", afirma.
"Muitas vezes as pessoas vão no posto médico por problemas pequenos. Queremos contribuir nesse sentido, no atendimento básico da população", finaliza a farmacêutica.
DCI - 20/04/2017
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