segunda-feira, 17 de julho, 2017

Europa sofre escassez de manteiga com alta demanda e menor produção

A Europa está sofrendo de uma escassez de manteiga. A demanda em alta e a queda na produção de leite resultaram em preço dobrado para o laticínio, este ano. As padarias francesas querem aumentar os preços dos doces, brioches e croissants que usam manteiga como ingrediente, e o presidente-executivo da Arla, que controla as marcas de laticínios Anchor e Lurpak, na semana passada alertou aos consumidores britânicos que não haveria manteiga suficiente no Natal. O desgaste na Europa tem origens internacionais. A combinação entre uma queda na produção de leite em países importantes e clima adverso levou o preço internacional da manteiga a um recorde em junho, de acordo com a Organização de Agricultura e Alimentos das Nações Unidas (FAO). "A disponibilidade limitada de laticínios para exportação em todos os grandes países produtores" levou a alta significativa nos preços dos laticínios, entre os quais a manteiga, a FAO informou este mês. A atual escassez de oferta e a alta consequente no preço da manteiga se seguem a um dos mais longos períodos de preços baixos para os laticínios desde o colapso dos mercados mundiais em 2007 e 2008. O clima favorável e as ações da União Europeia para liberalizar seu mercado de laticínios, em 2015, deprimiram os preços. Eles caíram em mais de 50% entre 2014 e 2015, e muitos produtores de laticínios deixaram o setor, em todo o mundo, por causa de dívidas insustentáveis. A União Europeia respondeu por meio de cortes voluntários de produção e subsídios aos pecuaristas que optassem por produzir menos leite. O suprimento das cinco principais regiões produtoras de leite no planeta caiu em 0,4% em 2016. No hemisfério sul, o clima ruim na Austrália e Nova Zelândia levou a produção deste ano a ficar abaixo da registrada em 2016, até o momento. O consumo de manteiga, por outro lado, continua a crescer. Kevin Bellamy, estrategista mundial de laticínios no banco holandês Rabobank, acredita que tenha acontecido uma "virada estrutural" nos padrões de demanda por manteiga. Isso ajudou a limitar a queda de preço do produto em 2014 e 2015, quando a oferta era robusta. "As pessoas estão adotando a manteiga, e quantidade maior dela vem usada em alimentos industrializados", ele diz. Estudos recentes também lançaram dúvidas sobre a conexão entre manteiga e doenças cardiovasculares, o que aguçou o entusiasmo dos consumidores. A propaganda negativa quanto aos potenciais efeitos adversos de algumas margarinas e outras pastas de base vegetal sobre a saúde também estimulou o retorno dos consumidores à manteiga. Raphael Moreau, analista de alimentos na Euromonitor, diz que o consumo de manteiga foi estimulado pela demanda por produtos "naturais", da parte dos consumidores que estão abandonando produtos como a margarina. "No Reino Unido, o consumo de manteiga também foi estimulado pela moda de fazer bolos, doces e pães em casa", diz. A despeito da alta no preço da manteiga, "muitos dos produtores não têm capacidade para elevar sua produção", diz Patty Clayton, analista sênior de laticínios no Conselho de Desenvolvimento da Agricultura e Horticultura do Reino Unido, uma organização financiada por agricultores e pecuaristas. E os preços recorde tampouco significam que os pecuaristas e empresas possam simplesmente transferir mais leite para a produção de manteiga, porque eles precisam continuar fornecendo leite fresco, creme de leite e queijo. "Os produtores de leite precisam priorizar os consumidores em longo prazo", diz Clayton. A atual escassez teria sido menos severa se houvessem estoques de reserva a que recorrer. Mas a demanda robusta erodiu os estoques mundiais. Além disso, a China voltou ao mercado de laticínios, entre os quais manteiga e queijo, diz Bellamy, do Rabobank. A despeito da alta nos preços da manteiga no atacado, o varejo e os fabricantes de alimentos vêm relutando em repassar os aumentos aos consumidores. Mas os analistas antecipam que isso venha a mudar quando suas margens de lucros sofrerem compressão. "Dada a inflação recente no preço da manteiga, se a alta continuar isso vai se refletir nos preços ao consumidor", acautela Clayton, que prevê que continuará a haver pressão de alta sobre os preços pelo resto do ano, porque a produção não deve se recuperar em curto prazo. "Os preços da manteiga voltarão a subir, mas isso pode demorar alguns meses para que retomem os níveis originais", diz Bellamy. Muitos produtores de laticínios na Europa e Brasil sofrem de uma escassez de vacas jovens para inclusão em seus rebanhos, depois de anos de preços mornos para os laticínios. "Por conta do período prolongado de preços baixos, não há estoque de vacas jovens", ele acrescenta.
Folha de S.Paulo - 17/07/17
Ver esta noticia em: english espanhol
Outras noticias
DATAMARK LTDA. © Copyright 1998-2017 ®All rights reserved.Av. Brig. Faria Lima,1993 3º andar 01452-001 São Paulo/SP