segunda-feira, 18 de setembro, 2017

Alimentos podem fechar o ano com deflação histórica

A queda dos preços de alimentos tem surpreendido constantemente o mercado e já é o principal responsável pela queda nas projeções para inflação no ano, medido oficialmente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A expectativa de economistas ouvidos pela reportagem é que o conjunto de preços de alimentação no domicílio, que representa pouco mais de 16% da cesta de produtos e serviços usada para integrar o IPCA, termine 2017 no nível mais baixo desde o Plano Real. A oferta abundante por causa da safra inédita de grãos é o principal fator a empurrar os preços dos alimentos para baixo. Depois de fechar com altas de 10,38% em 2015 e de 9,4% em 2016, o segmento de alimentação no domicílio deve terminar o ano no campo negativo, podendo ficar entre -3% e -4%, conforme os analistas. A última vez que foi registrada queda nessa categoria foi em 2006, de -0,13%, o resultado mais baixo da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 1994. Esse cenário contraria até mesmo a estimativa mais otimista do início do ano, que era de taxa positiva na faixa de 2%. Além da boa oferta de alimentos, o câmbio comportado também vem permitindo um cenário mais favorável para os preços alimentícios e, em magnitude menor, a recessão econômica e até mesmo a crise deflagrada pela JBS. Para alguns, a queda esperada em alimentação no domicílio pode fazer o IPCA fechar este ano abaixo de 3%, que é a banda inferior da meta inflacionária (4,50%). Essa marca aquém de 3,00%, se confirmada, seria o menor nível desde 1998 (1,65%). Essa forte deflação esperada para a categoria de alimentos em casa, que acumula -5,19% em 12 meses até agosto, deve produzir inércia para baixo nos outros preços da economia, diminuindo os riscos da política monetária seguir estimulativa por mais tempo. Conforme Fernandes, as dúvidas que ficam se dão em relação à intensidade e à duração do ciclo de queda da Selic. "Será que haverá normalização dos preços em 2018 ou a queda se estenderá?", questiona. A Quantitas já vê Selic caindo para 6,50% no ano que vem. Caso continue sendo surpreendido, o economista Leonardo França Costa, da Rosenberg Associados, não descarta a possibilidade de a taxa de juro terminar 2018 aquém da estimativa atual de 7,00%, que também é esperada para o fim deste ano. "Só passamos a esperar recuo em alimentação no domicílio no meio do ano. Chegamos a esperar alta de cerca de 4%. Agora, estimamos queda de 3%. Será histórico", afirma, levando em consideração projeção de 2,80% para o IPCA em 2017. Contudo, para o economista do Fibra, outras surpresas desinflacionárias dos alimentos não devem ter força para provocar cortes mais agressivos da Selic pelo BC. Na opinião de Oliveira, o hiato do produto, que deve se fechar ao longo do próximo ano, é o principal fator que o BC está monitorando. "Por mais que exista espaço de pressão baixista por mais tempo que o BC imagina, o hiato do produto se fechando nos próximos trimestres é muito importante", diz ele que estima 3,7% de alta do PIB em 2018 e 4,5% em 2019. "A discussão agora não é mais se o juro vai atingir 7% no fim do ano, mas por quanto tempo a taxa será mantida nesse nível e para qual patamar vai subir quando começar o ciclo de alta. O grupo Alimentação não entra nessa discussão", completa Souza Leal. Prato feito. A despeito da lista de alívio nos preços englobar uma gama de produtos, o arroz e o feijão são os mais lembrados pelos economistas. Depois de o feijão ficar mais caro 56,56% em 2016, só o do tipo carioca - um dos mais consumidos, acumula queda de quase 28% de janeiro a agosto deste ano. O arroz, que subiu 16,16% em 2016, já cai 8,58% neste ano até agosto. "Feijão, hortaliças e legumes, frutas e até mesmo as carnes estão caindo. É uma mistura de fatores: safra recorde, restrição orçamentária e os problemas da JBS após a delação dos seus empresários", afirma o economista da Rosenberg. Como não descarta novas surpresas em Alimentação, o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio Souza Leal, vê bastante chance de a inflação terminar abaixo de 3,00% em 2017, embora sua projeção atual seja de 3,10%. A estimativa do economista do ABC Brasil é de retração de 3,70% em alimentação no domicílio este ano, número que não tinha nas suas planilhas no começo do ano. "Pensando em um bom ano de alimentos, esperávamos anteriormente cerca de 3% de alta. Foi surpreendendo mais e mais até chegar nessa queda tão forte." "Em quatro momentos ao longo do ano o mercado chegou a antecipar que haveria uma normalização dos preços, mas seguiu surpreendendo", lembra o economista João Fernandes, da Quantitas Asset Management, que prevê queda de 4% para o segmento. Para o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, a "inércia boa" trazida pela forte deflação de alimentos no IPCA acumulado em 12 meses deve perdurar nos outros preços da economia durante bastante tempo, puxando a inflação toda para baixo. "Sempre trabalhamos com a inércia maligna, com o Banco Central (BC) tendo que combater subindo juros", lembra. Agora, diz, o efeito baixista deve possibilitar a política monetária a permanecer "frouxa". "O BC vai poder manter a taxa de juros estimulativa por mais tempo." O próprio BC vem ressaltando que a dinâmica favorável dos alimentos "persiste até o momento", conforme retrata a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês. Segundo o Banco Central, "essa queda intensa dos preços de alimentos constitui uma substancial surpresa desinflacionária". Ainda de acordo com a ata, o recuo do grupo responde por parcela relevante da diferença entre as projeções de inflação para 2017 e a meta de 4,5%. Em 12 meses até agosto, o IPCA acumula 2,46%.
Estadão 15/09/2017
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