terça-feira, 03 de abril, 2018

Tarifas de Trump provocam uma reação global em cadeia

As tarifas sobre aço e alumínio anunciadas pelo governo Trump estão provocando uma reação em cadeia em todo o mundo, e os governos, da Europa ao Canadá preparam-se para erguer barreiras e impedir que metais baratos, antes destinados aos Estados Unidos, entrem em seus mercados. Na última terça-feira, 27, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, anunciou uma série de mudanças regulatórias que facilitariam para as autoridades de fronteira bloquear as importações de aço e alumínio para aquele país. A União Europeia iniciou uma “investigação sobre salvaguardas” que pode resultar em tarifas ou outras ações comerciais caso se determine que o aço destinado ao mercado norte-americano está sendo desviado para o bloco. “Nos últimos dias, procuramos fortalecer as medidas que já temos em vigor porque é importante não recebermos aço que é rejeitado em todo o mundo”, disse Trudeau a repórteres em Ottawa. Os formuladores de política externa há muito compartilham as preocupações do presidente Donald Trump com o aço estrangeiro barato que inunda seus mercados, particularmente da China. Mas as rígidas tarifas de Trump, de 25% sobre aço e de 10% sobre alumínio, que deverão interromper o fluxo de metais estrangeiros para os Estados Unidos, levaram outros países a se mover mais rapidamente para restringir as importações do exterior. A resposta poderia ajudar Trump a reivindicar a vitória em uma de suas principais metas comerciais: reduzir o excesso de aço chinês barato, incluindo metais que são encaminhados por outros países através de um processo conhecido como transbordo. Este mês, Trump disse que o transbordo foi “um grande negócio” e argumentou que a China direciona muito mais aço para os Estados Unidos do que revelam as estatísticas. Altos funcionários do governo argumentam que o aço chinês é levemente processado e enviado através de outros países, mas eles não foram capazes de quantificar a disseminação dessa prática. A indústria americana de metais há muito afirma que é impotente contra o ataque violento de metal barato da China, que agora produz cerca de metade do aço e do alumínio do mundo. As empresas argumentam que fracassaram em grande parte os esforços do passado para fazer com que a China reduzisse o excesso de capacidade, e que o único recurso é adotar medidas mais amplas que possam trazer mais ânimo a um movimento global. Scott N. Paul, presidente da Aliança para a Manufatura Americana e um defensor das tarifas, disse que os países estão dando os primeiros passos em direção a uma série de acordos e discussões que poderão ajudar a reduzir o excesso de capacidade e as práticas anticompetitivas. “Outros grandes países e blocos siderúrgicos vão, necessariamente, assumir suas responsabilidades e adotar uma linha mais dura com a China quanto ao transbordo e evasão. Acredito que você veja isso ocorrendo na UE com sua investigação de salvaguardas, e eu acho que se vê isso com relação ao governo canadense”, disse ele. “Não creio que essa seja de forma alguma a conclusão do processo. Ele está apenas começando”. Ao restringir a oferta de metais estrangeiros nos Estados Unidos, as tarifas destinam-se a elevar o preço doméstico desses metais, o que se traduzirá em lucros para os fabricantes de metal americanos em dificuldades. Mas, no processo, haverá mais metal barato disponível nos mercados de fora dos Estados Unidos. Isso reduzirá o preço global do aço e do alumínio e criará um mercado de dois níveis. Depois que Trump anunciou suas tarifas, sindicatos e indústrias de aço e alumínio do Canadá alertaram Trudeau que, sem suas próprias medidas, o Canadá poderia ser inundado com aço e alumínio de baixo custo de países que exportam a preços artificialmente baixos. Funcionários europeus também alegaram que, sem proteção, suas empresas poderiam se tornar danos colaterais. Autoridades em Bruxelas alertaram que adotarão “medidas de salvaguarda” na forma de tarifas adicionais sobre produtos siderúrgicos se um inquérito sobre as tarifas dos EUA mostrar que pode haver um crescimento significativo nas importações de aço barato. “A UE é mais do que um inocente espectador”, disse Fredrik Erixon, diretor do Centro Europeu para Economia Política Internacional, um centro de altos estudos com sede em Bruxelas. A União Europeia já tem tarifas antidumping sobre aço em vigor, direcionadas principalmente para as importações chinesas baratas. Mas os líderes do bloco também deixaram claro que estão preparados para fazer mais e exercer pressão diplomática sobre Pequim, pressionando a China a reduzir os subsídios do governo para o setor siderúrgico, cortando tarifas de importação e abrindo seu mercado para o aço americano e europeu. Alguns defensores das tarifas enxergam os movimentos como evidência de que a estratégia do governo Trump está funcionando. Mas outros especialistas em comércio veem essa reação em cadeia como a primeira de uma série de ações prejudiciais que acabarão elevando o preço dos metais globalmente e tornando os mercados menos livres, ao redor do mundo. Eswar Prasad, professor de política comercial na Universidade Cornell, disse que embora a abordagem de Trump pareça estar rendendo frutos no curto prazo, isso pode acabar prejudicar a confiança dos parceiros comerciais dos EUA e afetar a economia. “Mesmo se parecer que outros países estão se alinhando do lado dos EUA, e isso ajudará em termos de redução do suprimento de aço e alumínio, pode contribuir muito pouco para o nível de emprego nesses setores, e acabar prejudicando outras indústrias, que usam aço e alumínio como importações”, disse ele. “Então, poderíamos acabar com uma espécie de vitória de Pirro para os Estados Unidos.”
Estadão - 03/04/2018
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