segunda-feira, 04 de junho, 2018

Greve dos caminhoneiros já prejudica exportações brasileiras

A paralisação dos caminhoneiros em protesto contra a alta do preço do diesel já impacta as exportações brasileiras e causa prejuízos ao país. Sem receber insumos e com estoques lotados, as fábricas reduzem o ritmo de produção, os produtos não chegam aos portos e os embarques acabam reduzidos. "A carga não entra pelo transporte rodoviário e há portos em que nem mesmo os navios conseguem chegar por bloqueio de pescadores [caso de Itajaí, SC]. Terminais de Santos vão ter que parar porque não conseguem receber a refeição dos trabalhadores", relata. Em Santos, o acesso de veículos rodoviários de carga às instalações do porto apresenta, desde segunda-feira, redução nas operações de recepção e entrega de mercadorias pelos terminais. Segundo a Associação Brasileira de Fornecedores de Navios (ABFN), sete navios, das 35 embarcações que estão atracadas no Porto de Santos, zarparam sem o consumo de bordo. No porto de Paranagúá, no Paraná, as operações de granéis – como soja, milho e trigo, por exemplo – tinham diminuído 27% até a manhã de quinta-feira. Ou seja, a movimentação diária caiu de 150 mil toneladas 110 mil toneladas. Há também problemas registrados em outros portos do Brasil, como no Rio de Janeiro. Carne deixou de ser exportada Até quarta-feira (23) 25 mil toneladas de carne de frango e suínos deixaram de ser enviadas ao exterior, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (Apba). O desfalque já provoca uma perda de US$ 100 milhões em receitas. No caso da carne de boi, 1,2 mil contêineres deixam de ser embarcados por dia. A previsão das duas entidades é de que mais de 90% da produção de carnes no país será interrompida até sexta-feira (25) caso os caminhões não voltem a circular. 1 dia de estoque de farelo de soja Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), na véspera (23) os terminais de carga das empresas associadas ainda tinham estoque para abastecer navios de farelo de soja por mais um dia. Isso quer dizer que, a partir de amanhã, faltarão produtos para exportação caso a paralisação continue. Deixarão de ser embarcadas 320 mil toneladas de farelo por dia. "Algumas empresas já reportaram que não estão mais esmagando soja porque já usaram toda a capacidade de armazenamento de óleo e farelo", diz o presidente da assocuiação, André Nassar. De acordo com o diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Mendes, as exportações de grãos ainda estão acontecendo por causa dos estoques nos portos, mas os embarques devem ser reduzidos em breve. "Não tem mais abastecimento e daqui a pouco as fábricas não vão ter lugar mais estocar e terão que parar de produzir", afirma. Ele estima que serão exportadas 118 milhões de toneladas de milho, soja e farelo de soja no ano, o equivalente a US$ 30 bilhões em receitas. Em uma conta simplificada, caso os embarques sejam interrompidos, são 323 mil toneladas de grãos que deixarão de ser enviadas por dia, o equivalente a US$ 82 milhões. Mendes destaca porém, que a Anec apoia a greve dos caminhoneiros porque a alta do preço do diesel tem grande peso para os produtores, que dependende do combustível para operar máquinas agrícolas, além de escoar os produtos. Cadeia de veículos Na avaliação das montadoras, a exportação de veículos também será prejudicada. “A situação é preocupante. Muitas fábricas já pararam suas linhas de montagem e, se a greve dos caminhoneiros continuar até o fim de semana, é certo que todas as fábricas pararão. Com isso, teremos uma queda na produção, nas vendas e nas exportações de veículos, tendo como consequência impacto direto na balança comercial brasileira e na arrecadação de tributos”, diz Antonio Megale, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). 'Perda compensada' Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, as exportações brasileiras devem registrar queda nesta e na próxima semana, principalmente, mas as perdas devem ser compensadas mais adiante. "Pode atrasar um pouquinho, adiar o embarque, mas [os outros países] vão ter que comprar do Brasil, principalmente commodities. Ainda mais com a super quebra na safra de soja da Argentina, mais do que nunca o mundo vai buscar a soja do Brasil", disse. "As exportadoras podem até ganhar com a desvalorzação do câmbio", acrescentou. No caso das exportadoras de carnes, a conta pode mesmo ficar mais cara. "Com a demora no abate, os animais continuam comendo, gera custos", explica. Ainda de acordo com Castro, os impactos devem ser maiores na exportação de produtos manufaturados, cujos contratos têm prazo para entrega. "Me preocupa a situação da Argentina. É o maior importador de produtos manufaturados do Brasil [compra 25% do que o país vende] e 43% das exportações para lá são feitas via transporte rodoviário. Além disso, o pedido de ajuda ao FMI pode ser um motivo para cancelar contratos", diz. Balança comercial Não há ainda balanço oficial do governo sobre o impacto nas exportações desde que os caminhoneiros pararam as atividades. O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) divulgará balanço semanal com dados prelinares apenas na segunda-feira. No acumulado do ano, porém, as exportações brasileiras superam as exportações em US$ 25,3 bilhões. Em todo ano passado, a balança comercial registrou um saldo positivo de US$ 67 bilhões, o melhor resultado para um ano fechado desde o início da série histórica do ministério, em 1989. Impacto na cadeia agrícola A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) alerta que a paralisação dos caminhoneiros já provoca prejuízos em toda a cadeia agrícola. Segundo o superintendente técnico Bruno Lucchi, já há produtores jogando leite fora por não conseguir transporte e suínos sem alimentos por falta de ração, além de plantas frigoríficas com abate suspenso. "Também estamos vendo oportunismo. Tem batata, que normalmente custa R$ 1,30 o quilo sendo vendida a mais de R$ 7. Tem produtos que não estão chegando ao centro de distribuição e quem tem está cobrando caro". No mercado, já há também desabastecimento de alimentos, combustíveis e gás de cozinha.
G1 - 24/05/2018
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