quinta-feira, 21 de fevereiro, 2019

De volta aos trilhos

2018 foi mesmo um ano do cão, tanto no sentido do horóscopo chinês como no das sofrências suportadas pelo Brasil. Para variar, aquelas previsões iniciais a 100 graus para o último período foram sendo revisadas para baixo já a partir do segundo trimestre e o plástico, como termômetro extra oficial do consumo, levou as sobras da palidez da economia. Apesar dos pesares, o consumo aparente de resinas, estima a consultoria W4Chem, pulou 4,4% no ano passado, índice equivalente ao garbo da taxa de elasticidade acima de três vezes o PIB de 1,3%. A testosterona por trás desse salto provém das importações, pois a produção e exportação brasileiras de termoplásticos commodities fecharam 2018 no vermelho, evidenciando a pressão crescente exercida pela penetração no país da resina internacional, em especial polietileno (PE) e polipropileno (PP), a preços da rota gás com viés de baixa, efeito do excedente norte-americano aditivado com a guerra comercial de Trump contra a China e, do seu lado, a demanda da Europa não dilui o desbalanço. Pelo andar da carruagem, este filme continua em cartaz em 2019. “Após cair por três anos consecutivos, de 2014 a 2016, o consumo aparente de resinas subiu em 2017 e 2018”, constata a analista Marta Loss Drummond, sócia da W4Chem. “No ano passado, alguns mercados importantes reagiram após longa crise, caso da construção civil e setores farmacêutico e automotivo, que impactam positivamente no desempenho de resinas como PVC e polipropileno (PP)”. Entre as frentes com desempenho a desejar, Marta destaca alimentos, varejo, brinquedos e, no plano geral, bens de consumo semiduráveis e não duráveis. “As importações de resinas aumentaram muito no final do ano, refletindo-se em forte expansão do consumo aparente, mas, provavelmente, parte do volume desembarcado ainda estava sendo consumido em janeiro de 2019”, ela pressupõe. Marta justifica o salto nas importações brasileiras de poliolefinas, na faixa de 1milhão de toneladas desembarcadas em 2018, com a superoferta internacional e seu efeito dominó sobre os preços dessas commodities. Por sinal, George Martin, analista do Icis, portal britânico especializado em petroquímica, também atribui a queda das cotações de polietileno norte-americano na América Latina ao impacto da valorização do dólar sobre as moedas locais. “No Brasil, os preços de PP e PE ficaram mais competitivos no segundo semestre de 2018, quando se observaram as maiores quantidades de compras externas”, percebe a diretora da W4Chem. “As empresas brasileiras importaram um volume de poliolefinas 12% acima do aferido em 2017 e os preços em reais das resinas subiram de modo significativo no mercado interno, influência dos reajustes no câmbio e recuperação das cotações do petróleo”. Como desfecho, ela constata, as importações de PP e PE cresceram mais que o índice da demanda doméstica. O cenário permanece bem parecido este ano, nota Marta. 2019 abriu com PP e PE a preços domésticos menores – reação da Braskem para retomar sua participação de mercado – e viabilizados pelo recuo na cotação do petróleo, considera a consultora. “Porém, as importações tendem a continuar pressionando, numa conjuntura de dólar em queda e intensa oferta da resina norte-americana”. Poliestireno (PS) foi o termoplástico de pior performance em 2018, distingue Marta. Seu consumo aparente recuou cerca de 3% sobre o saldo de 2017, ela projeta, devido à queda nos mercados chave do polímero, eletroeletrônicos e descartáveis. Innova e Unigel, os produtores de PS no país, atenuaram este baque graças à sua verticalização no estireno, deixa patente a analista da W4Chem. “Os mercados do monômero tiveram bom desempenho recente”, ela comenta. Com a reação esperada este ano na construção civil e setor automotivo, evidencia Marta, o horizonte para estireno configura-se positivo em tintas e elastômeros de pneus, “enquanto PS tende a crescer com moderação, em linha com o PIB”, ela confronta. Estimativas da consultoria MaxiQuim situam o consumo aparente de estireno em 604.000 toneladas em 2018 versus 623.000 em 2017. Na mesma toada, a produção no ano passado fechou em 445.000 toneladas contra 480.000 anteriores; a importação ficou em 159.000 toneladas perante 147.000 em 2017 e a exportação, devido também às complexidades do transporte marítimo do monômero, limitou-se a uma tonelada em 2018 frente a quatro um ano antes. Mas uma nuvem carregada paira sobre as expectativas de bons momentos para o monômero. John Richardson, analista e blogueiro do Icis, sustenta não haver notícias de capacidades adicionais de estireno nos EUA, onde, tal como na esfera mundial, o mercado de PS padece de anemia. Por isso, ele coloca no seu blog, as exportações do monômero tornaram-se primazia para seus produtores norte-americanos e a China é, de longe, o maior importador de estireno do planeta. Se Trump e o governo chinês findarem o fogo cruzado de barreiras tarifárias, os EUA, para operar satisfatoriamente sua capacidade, do ponto de vista econômico, precisarão embolsar 37% do mercado mundial de importações de estireno no período 2018-2025 e, caso a guerra comercial siga em frente, a participação de mercado necessária subirá para 61%, sustenta Richardson.Tem mais: além das avarias causadas pela guerra comercial, a economia chinesa mudou desde 2018 de intenso para brando o modo de seu crescimento. São más novas para o mercado mundial de estireno, pois, na projeção do analista do Icis, a China permanece a jugular do negócio, devendo responder por 34% da demanda e 15% das importações mundiais do monômero no período 2019-2020. Devido a essa expansão amornada, conclui Richardson, o mercado chinês de estireno periga encolher em torno de 1 milhão de toneladas no cômputo cumulativo entre 2018 e 2020. Amarrando-se as pontas, dado o excedente norte-americano do estireno formulado com o eteno mais barato do planeta, mérito da rota do gás, o Brasil, pela condição logística e por produzir o monômero pela rota mais cara, da nafta, torna-se um destino a ser considerado mais de perto pelos exportadores norte-americanos, tal como já ocorre com polietileno linear de baixa densidade (PEBDL) e vale o mesmo, pela linha de raciocínio de Richardson, para monoetileno glicol (MEG), insumo-chave de PET. A recessão na Argentina também deixou sua marca no comércio exterior das resinas brasileiras em 2018. “As empresas argentinas estão carentes de recursos, como demonstram seus distribuidores ao abolir a praxe, sob impacto das altas taxas de juros, de vender termoplásticos a prazos muito longos, mais de 90 dias”, ilustra Marta Loss Drummond. Com a perda no poder aquisitivo dos transformadores argentinos, as importações brasileiras de resinas da Argentina aumentaram 15% perante os desembarques de 2017. “Os volumes trazidos de PP subiram 33%; de PE, 10% e de PVC, 13%”, delimita a pesquisadora. “Por sua vez, o Brasil enviou 23% a menos de resinas para a Argentina e tudo leva a crer que 2019 não será diferente”. Em relação ao mercado interno Marta elege como prováveis campeãs do consumo este ano as resinas voltadas para bens duráveis, caso de PP e PVC, a tiracolo da ansiada reativação da indústria automobilística e construção civil. “O consumo de PE também deve expandir, na cola da melhora prevista no desempenho de seus principais mercados: alimentos, cosméticos e produtos de higiene e limpeza”, alinha a consultora. No plano geral, a W4Chem projeta para 2019 crescimento na média de 4% no consumo aparente de resinas sobre o total de 2018, calibrado por avanço de 2,3% no PIB.
Plásticos em Revista - 21/02/2019
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