quarta-feira, 31 de julho, 2019

Cacau na Bahia vive renascimento após 30 anos com vassoura-de-bruxa

Região, que ganhou selo de Indicação Geográfica em 2018, vê potencial para ampliar porcentual de cacau superior na produção e desenvolver o mercado de pequenos empreendedores de chocolate No ano em que se completam 30 anos da introdução da doença vassoura-de-bruxa em lavouras de cacau no sul da Bahia, a região - que segue convivendo com o fungo - vive uma fase de renascimento. Com produção reduzida a quase um quarto do volume que se produzia na década de 1980, é constante a busca por um produto de maior qualidade e maior valor agregado. Diversos atores vêm contribuindo nos últimos anos, com laboratório de análises de cacau e selo de Indicação Geográfica, para ajudar a estimular a região, aprimorar o beneficiamento do cacau e desenvolver a cena de muitas e pequenas marcas de chocolate bean to bar (feitos da amêndoa à barra). Impulsionados por uma crescente demanda mundial desse tipo de chocolate feito em menor escala, com cacau de origem e maior qualidade no processo, cacauicultores do sul da Bahia têm a oportunidade de ampliar o percentual das amêndoas de cacau superior que saem das terras nos arredores de Ilhéus. Hoje, dentre os estimados 25 mil produtores da região, 97% do cacau ainda é commodity, segundo dados de estudo realizado pelo Sebrae da Bahia em parceria com o Instituto Arapyaú, divulgado em fevereiro deste ano. O estudo levou quatro meses para ser feito com análise de dados, além de entrevistas com produtores locais e material recolhido em viagem de uma comitiva para a costa oeste dos Estados Unidos, onde a cena do chocolate bean to bar é referência. E, se o mundo está de olho em produtos gastronômicos cada vez mais rastreáveis, com origem e características sensoriais preservadas, a Bahia quer pegar carona. “O consumidor está demandando produtos mais naturais, saudáveis, com menos ingredientes. Isso acontece no café, no vinho, no azeite e também no chocolate. Mas somos empresas pequenas e a grande cadeia varejista tem de entender isso. Não dá para cobrar da gente o que se cobra da Nestlé”, defende Pedro Magalhães Neto, presidente da Chocosul (Associação de Produtores de Chocolate do Sul da Bahia), que viajou para os EUA em janeiro com o Sebrae ao lado de outros produtores. Neto de cacauicultor, Pedro deixou o emprego como tesoureiro em grande empresa de peças automotivas para voltar, em 2009, à fazenda da família, a Lajedo do Ouro, em Ibirataia. Em 2012, fez a primeira exportação de cacau fino para a França. Em 2015, com o aprimoramento de seus cultivos e depois de fazer cursos de chocolate, lançou a marca VAR, cuja pequena fábrica foi construída dentro da fazenda num espaço de 60 m2. Hoje, sua fazenda produz 75 toneladas de cacau por ano, sendo ao menos 30% de cacau de alta qualidade, que vale pelo menos o dobro do commodity e alimenta o mercado dos pequenos empreendedores de chocolate. Exporta metade disso e a outra parte vende para marcas como Casa Lasevicius, de Bruno Lasevicius, em São Paulo - os dois são parceiros também na Associação Bean to Bar Brasil. Com o cacau que vai para a sua marca VAR, Bruno faz em média 110 kg de chocolate por mês - seu faturamento em 2018 como chocolateiro ficou em torno de R$ 150 mil. Indicação geográfica. Apesar de já estar alguns passos à frente da média dos produtores da região, Pedro integra um grupo cada vez mais crescente em busca de cacau de qualidade superior. Alguns deles agora apostam também no selo de Indicação de Procedência (IP) concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), em 2018, para as “amêndoas de cacau do sul da Bahia”. O selo é uma das duas modalidades de Indicação Geográfica no Brasil (a outra é a Denominação de Origem), que juntas somam 61 selos desde 2002, reconhecendo produtos como os vinhos do Vale dos Vinhedos (RS) e o queijo da Serra da Canastra (MG). Mas não é só estar no sul da Bahia para ter o direito ao selo do cacau: critérios de origem e qualidade são analisados a cada lote pela Associação dos Produtores de Cacau do Sul da Bahia (ACSB), detentora do selo no Inpi. A ACSB, que reúne 16 entidades e representa mais de 3 mil produtores, é a responsável por formulários e visitas técnicas às fazendas. Para receber o selo, o produtor deve cultivar o cacau em sistema cabruca (em meio à mata) ou agroflorestal, com baixa carga de defensivos, e deve ter amêndoas com fermentação mínima de 65%, umidade de até 8% e aroma livre de odores como fumaça, entre outros quesitos. Ou seja, aqui não entra o commodity. “Os produtores estão reaprendendo a fazer. Porque, em 30 anos, a gente tem uma geração perdida, que desaprendeu a fazer cacau bom por causa da vassoura-de-bruxa”, conta o engenheiro agrônomo Cristiano Santana, diretor-executivo da ACSB. Segundo ele, em um ano, 18 produtores entraram com o pedido do selo de Indicação Geográfica na associação, e 11 deles já o receberam, como Lucas Arléu (que vende amêndoas para marcas como Gallette) e Henrique Almeida (que faz o próprio chocolate, da marca Sagarana). Depois de passar pela validação da ACSB in loco, o produtor tem sua saca lacrada e ganha um QR code com todas as informações de origem e qualidade do cacau. Também a partir de validação da associação, marcas de chocolate podem levar esse QR code até a embalagem, novidade estreada pela Sagarana neste mês, em Ilhéus. “Quando o produtor pede o selo, ele melhora a imagem dele e ajuda a fomentar a região. Porque passa de commodity para cacau premium”, comenta Ana Carolina Menezes Argolo, analista de negócios do Sebrae-BA e gerente do projeto “Cacau e derivados da mata atlântica”. Na região, estima Carolina, são cerca de 30 pequenas marcas de chocolate, que podem receber a ajuda do Sebrae para validação de planos de negócios, consultoria de gestão e práticas agrícolas, além de criação de marca e rotulagem. Fonte: Estadão
Mercado do Cacau - 31/07/2019
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